Toca um tango, apenas através do som de um violão antigo, que se encostava ao fundo da sala. Os rostos, no entanto, não são antigos. São jovens, e jovens também os ares que embalavam aquele momento. Era um encontro novo, entre duas famílias. A portenha e a carioca. O vinho, tinto malbec. O sopro dos ventos equilibrava o clima, trazendo ares temperados à noite tropical. Mi Buenos Aires querida! Saudade. Essa palavra legítima brasileira assegurava no presente uma história de dupla nacionalidade. Sônia faria oitenta anos. Ninguém acreditava. O rosto de menina, ainda com sorriso de moleca, e um olhar a aspirar ao futuro e a todas as suas possibilidades. Pela sala se espalhavam filhos, sobrinhos, irmãos, netos, crianças alheias. E cada um sustentando a infância na sua mais singular particularidade. Aquilo que me pertence, minha história. Não esses anos que se vão, sem limites, sem controle. Estes anos não, estes não me fazem parte. O encontro permitia assegurar esse momento, onde o envelhecimento não tinha espaço. Era algo maior em comum que pisava, com pequenos passos firmes, a palavra saudade. Era a simples presença.Mais um tango por favor. Por favor, esta palavra de duas línguas. Por favor! Pediram todos em coro, e cantaram noite adentro um tango seco, com vinho seco, e ingressaram por uma extensa e infinita alegria. O Parabéns para você não foi necessário.
Texto de Eugenia Ribas Vieira





