terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Palavra saudade

Toca um tango, apenas através do som de um violão antigo, que se encostava ao fundo da sala. Os rostos, no entanto, não são antigos. São jovens, e jovens também os ares que embalavam aquele momento. Era um encontro novo, entre duas famílias. A portenha e a carioca. O vinho, tinto malbec. O sopro dos ventos equilibrava o clima, trazendo ares temperados à noite tropical. Mi Buenos Aires querida! Saudade. Essa palavra legítima brasileira assegurava no presente uma história de dupla nacionalidade. Sônia faria oitenta anos. Ninguém acreditava. O rosto de menina, ainda com sorriso de moleca, e um olhar a aspirar ao futuro e a todas as suas possibilidades. Pela sala se espalhavam filhos, sobrinhos, irmãos, netos, crianças alheias. E cada um sustentando a infância na sua mais singular particularidade. Aquilo que me pertence, minha história. Não esses anos que se vão, sem limites, sem controle. Estes anos não, estes não me fazem parte. O encontro permitia assegurar esse momento, onde o envelhecimento não tinha espaço. Era algo maior em comum que pisava, com pequenos passos firmes, a palavra saudade. Era a simples presença.
Mais um tango por favor. Por favor, esta palavra de duas línguas. Por favor! Pediram todos em coro, e cantaram noite adentro um tango seco, com vinho seco, e ingressaram por uma extensa e infinita alegria. O Parabéns para você não foi necessário.
Texto de Eugenia Ribas Vieira

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

MENSAGEIRO

ao poeta

O dom vem de Deus.
Dádiva, desce da luz, bruto.
Estende tua mão, trabalha tua mensagem,
afia tua pena, talha tua palavra até o sangue!
Deus descerá um pouco, a cada verso,
disfarçado sob teus signos.




Texto de Carmen Moreno

domingo, 20 de dezembro de 2009

Apelo da escrita

Jorge era um homem vaidoso. Em seus trinta e oito anos, gostava de se arrumar impecavelmente, e a paquera era um de seus principais motivos. A psoríase aparecera nos últimos cinco anos. O medo da pele tomada por um embranquecido mórbido, como fungo, jogou-o num balaio escuro. Não sabia como conter a doença, que a cada dia ocupava mais blocos de sua pele.
Foi neste mesmo período que começou a fazer pressão um pensamento remoto. Uma insatisfação que corroía a própria dignidade, e junto com as manchas, tornou crítico o apresentar-se em público. Este pequeno e inofensivo sonho, que um dia lhe fora o principal motivo. Tornar-se escritor.
Algumas coisas são deixadas de lado, sempre quando fazemos uma escolha. Outras, nos são imprescindíveis. Considerado por todos um simples capricho, e relegado a segundo plano por Jorge, o ato de não ter insistido na escrita voltou-se contra si próprio. A psoríase veio a consumir, anos mais tarde, as mãos e a cabeça, justamente. Foi aos trinta e oito anos que Jorge entrou numa grande crise e parou, obrigado a parar.
Por destreza apresentada logo na juventude, não por querer, escolhera a profissão de técnico, técnico de informática. Algo muito novo para a sua geração, que terminava a faculdade com um mundo de opções tecnológicas pela frente. O motivo técnico era algo de dar orgulho e seus pais logo concordaram:
-Mas é claro meu filho. Deixe esse negócio da escrita para lá.
Era melhor entender a dinâmica de uma máquina, do que a repetição fictícia das palavras. Quem afinal o creditaria escritor? Desde quando surgiam escritores? E a escrita, a escrita para que fim? As perguntas ingratas amaldiçoavam os pensamentos, que livres, sempre insistiam em aparecer, sobrepondo-se às ocasiões concretas por que passava. Era como uma supra linguagem, que permeava os encontros, os nomes, os gostos. Tudo para Jorge recebia um texto, porém nunca ousava contá-lo; sequer escrevê-lo.
Foi assim durante a adolescência, durante o início da juventude. Mas com o tempo, Jorge foi mesmo calcando as fantasias para baixo dos pequenos e jeitosos manuseios diários que a atividade de técnico exigia. E as esqueceu. A doença dera os primeiros sinais. Contagiado com manchas brancas que subiam pelas mãos e desciam pelo início da testa, já sem cabelos, Jorge perdeu o controle. Chorou as noites sós em seu pequeno quarto executivo. Foi riscando móveis e paredes, com unhas contorcidas e frágeis. Foi embriagando-se mais, e mais um pouco. Foi, sem rumo e nem abraço.
O que seria a acolhida de uma pessoa, frente a dor da alma solitária, dor que grunhia de dentro? Não lhe servia de nada. Era consigo a insatisfação, Jorge o sabia, por mais que se apresentasse cada vez mais rabugento, até agressivo. Empurrou a irmã com a força dos dois braços, uma vez, no Dia dos Pais. Ela lhe respondeu, estirada sobre o sofá de tecido pálido:
- Você se esqueceu da fé.
Jorge calou-se, e permaneceu por três semanas em seu apartamento, sem atender telefonemas ou porta. Não ligou o computador. Voltou-se completamente para si, este que não aguentava nem mais olhar. Mais que para si, para uma força remota e desprendida, que absorvia-lhe pensamentos e pensamentos. Era como um vulto cíclico, amaldiçoado. Nesta hora lembrou-se da irmã, de sua frase categórica sobre a fé. Perdera de fato a fé, mas a fé em si. Fora descuidado ao ponto de deixar que lha tomassem por completo. Eram tantas as inadequações, os erros, as escolhas forçadas. Não mais pensaria nelas, senão poderia enlouquecer.
Retornou ao vulto. Aquele, tão confuso. Com caneta na mão, buscou uns papéis na impressora. Retirou um bloco dali, depositando-o à sua frente. Seu alinhamento era vertical frente aos olhos baixos e carcomidos por um inchaço vermelho das pálpebras. Lembrou-se da compostura. Ajeitou-se, aperfeiçoando a coluna, e estreitou-se na cadeira para caber dignamente. Respirou fundo, como se a seriedade, que a tempos lhe escapara, fosse novamente encontrada. Era uma consciência, pura, não mais uma imagem.
O aperto sólido da caneta no punho, e um único desejo à eternidade: porque não havia mais medo, nem mais dever. Era por ele, sua própria câmera de leitura. Como um Cristo enrigecido e sólido a esmoer seu texto sem seguidores. Era apenas um quarto em silêncio. Mas não havia medo. E todo o resto, deu-se por não haver mais. Tornara-se indiferente a tudo, menos ao que lhe era próprio, e o fez escrita.
A progressão da doença veio aos poucos a diminuir. Jorge a assumiu, assim como a sua escrita, carregada por onde fosse, pelas mãos manchadas. A quem o chamasse, a quem ele mesmo reunisse, apresentava seus textos. Gostava de dizê-los em voz alta, palavra por palavra, fazendo pausas para observar a reação da plateia. Lia, parava, a encarava e sorria. Precisava da reação da plateia, dos pequenos aplausos de aprovação, e dos raros elogios, cometidos vez ou outra.
Suas pequenas câmeras de leitura: formadas de amigos, e de alguns familiares que de início compareciam como apoio, mas que depois se encantaram. Fora, em mínima proporção, a saída para satisfazer este apelo que de um momento para outro, dera a incomodar tanto.

Texto de Eugenia Ribas-Vieira

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Armário de palavras

As portas estão escancaradas e, outra vez, procuro algo para vestir. Escolho, como de costume em todas as manhãs, a calma – se olhar de perto dá para ver que as pontas estão um pouco puídas pelo uso -, mas o relógio acusa quinze minutos de atraso, portanto, já vejo que nem calma e nem tranquilidade me servirão adequadamente hoje.
Faço uma anotação mental de que preciso mandar alargar a afobação; ela me pega no pescoço e pinica que é um horror... Vivo me questionando sobre quando tive a maldita ideia em adquirir algo tão incômodo. "Está na moda”, disseram-me e eu, que sempre fui um tanto démodé, achei que, talvez, estivesse na hora de me enquadrar. Estresse é o novo pretinho básico; todo mundo tem que ter, pois o uso é ilimitado.Quem foi mesmo que disse que alguns itens são obrigatórios em qualquer armário?
Respiro fundo, sentindo o ar entrar nos pulmões e inflá-los lentamente. Oh, confiança!, como fico feliz em vê-la; ela geralmente combina bem com tudo. A última vez que a usei foi numa livraria bacana durante um encontro com uma plateia interessante e atenta. Só fui tirá-la dos ombros quando a palestra acabou e vi que estava entre amigos.Como chovia a cântaros e eu precisava conseguir um táxi e chegar no horário marcado, usei a sorte como um xale; é considerada chique e também uma peça coringa. Ou seja, pode ser usada de várias maneiras e sempre causa um efeito extraordinário. Foi uma noite encantadora e ainda está fresca na memória.
Não saio de casa sem umas boas borrifadas de humor, mesmo quando intuo que o perfume sumirá no ar antes do final do dia. Acontece e é humano. O melhor, nessas circunstâncias, é assumir que as coisas, às vezes, saem do nosso controle. Uma amiga, quase sempre de bem com a vida, ensinou-me que o truque é evitar vestir o nervosismo em dias estafantes. A combinação é lamentável e o resultado, desastroso.
Opto, enfim, por uma confortável veste de boa vontade com passamanaria de gentileza – que todo mundo me pergunta onde encontrei -, botões de intuição e bolsos de larga precaução.Para um dia cinzento, basta um bolero de energia positiva bem ajustado no corpo. Acho que estou pronta para começar mais um dia. Só uma dúvida: seriedade combina com sapatos vermelhos?


Texto de Corina Haaiga

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Livreiro

“Entre os mais humildes comércios do mundo está o livreiro.
Embora sua mercadoria seja a base da civilização, pois é nela que
se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso
estômago nem à nossa vaidade. Não é, portanto,
compulsoriamente adquirido. O pão diz ao homem: ou me
compras ou morres de fome. O batom diz à mulher: ou me
compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos. Mas se o livro
alega que sem ele a ignorância se perpetua os ignorantes dão de
ombros, porque é próprio da ignorância sentir-se feliz em si
mesma, como o porco em sua lama.
E, pois, o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se.
Qualquer outro lhe daria mais lucros; ele o sabe e heroicamente
permanece livreiro. E é graças a essa abnegação que a árvore da
cultura vai aos poucos aprofundando suas raízes e dilatando a sua
fronde. Suprima-se o livreiro e estará morto o livro e com a morte
do livro retrocederemos à idade da pedra, transfeitos em tapuias
comedoras de bichos de pau podre. A civilização vê no livreiro o
abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpétua, a trêmula
chamazinha da cultura.”


Texto de Monteiro Lobato

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Poema a um veterano autor


Cheguei em casa, como todos os dias.
Abri o portãozinho, entrei, fechei.
Abri a porta da frente, entrei e passei a chave.
Mamãe, deitada no sofá, assistia
o Jornal Nacional. Me avisou que tinha
uma carta pra mim em cima da cama.
Fui para o quarto ver quem foi que mandou.
Rainer Maria Rilke era o remetente.
E as paredes do quarto todas pintadas
de um amarelo estupefato, qual minha
cara. Abri com cuidado o tal envelope,
tirei a carta e li – putz! Era alemão!
Corri, então, pra casa do Klaus, amigo
meu, filho de alemães, e que dominava
também a língua, para ler o que estava
escrito por aquela caligrafia:
“Não mande cartas para mim. Qualquer que
seja, não mande. Estou só me adiantando.
Esqueça a poesia. Quero descanso.
Cordialmente, Rainer Maria Rilke.”
A mãe do Klaus havia feito chucrute.


Texto de Remo Saraiva

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Colo

Busco o poema como quem se esparrama,
tateando a cama vazia.
Quero, no colo da palavra,
a cor que falta no dia.
Porque amar não é feito chover ou chorar:
amar não é a fluidez das coisas, que são, sem esforço.
Amar é mais afogamento, alvoroço.
Um riso equilibrista, na mira do desgosto.
Quero o poema como o banho, como o porre,
que desmaia e lava. O poema como lava,
paixão que não deserta.
Carícia certa.


Texto de Carmen Moreno